Parecer 2000 [Março]

Parecer sobre as propostas de reajustamento dos programas de Matemática, DES

Comissão Coordenadora da Secção de Educação e Matemática da SPA

Dividiremos este parecer em cinco áreas.

1. Questões prévias

Registamos positivamente, e em primeiro lugar, a vontade manifestada pelos autores dos programas de pôr à discussão as alterações curriculares. Trata-se de um corte, que vemos com agrado, com um passado autoritário (e autista). No entanto, a urgência da emissão de uma opinião, bem como o desconhecimento das intenções dos autores em relação ao 11.º e ao 12.º anos, limitam fortemente as possibilidades de uma discussão mais aprofundada.

2. Sobre o módulo de orientação

Discordamos da introdução do módulo de orientação no início do 10.º ano. Aparentemente, pretende-se dar «uma hipótese de correcção de percursos formativos». No entanto, a solução encontrada é muito pior do que a situação actual. Criticamos a forma, o conteúdo e a viabilidade desta proposta.

2.1. Quanto à forma, pensamos que se começa o ano da pior maneira. Iniciar o novo ciclo com um módulo que vai ter consequências determinantes no prosseguimento dos estudos, é extremamente desmotivador quer para os alunos, quer para os professores.

2.2. Quanto ao conteúdo, não compreendemos a razão da escolha da geometria. A geometria não possui virtualidades preditivas do desempenho em Matemática. Nenhuma investigação mostra (ou sugere sequer) que os alunos com dificuldades em geometria não devem prosseguir estudos envolvendo a Matemática. Esta nossa objecção é, no entanto, mais geral, e pensamos que nenhum tópico da Matemática tem por si só essas virtualidades preditivas.

2.3. Quanto à viabilidade, pensamos, por um lado, ser impossível formar uma opinião sobre a adequação dos alunos a qualquer disciplina em 9 aulas. E o que vai acontecer aos desadaptados? Mudam de curso? Ao fim de nove aulas? E se são desadaptados a várias disciplinas? Qual a entidade que se responsabiliza por negar a continuação dos alunos nos cursos escolhidos?

Introduzir ou reforçar mecanismos de aconselhamento dos alunos no final do 9.º ano, ou no momento da sua inscrição no 10.º, dando-lhes um carácter obrigatório, parece-nos uma opção bem mais frutífera do que a proposta actual.

3. Sobre a Matemática B

Manifestamos muitas reservas em relação aos conteúdos programáticos de Matemática B, onde pensamos que se está a repetir os erros cometidos com o programa de Métodos Quantitativos e a acrescentar outros.

3.1. Discordamos do processo de construção do programa de Matemática B. Este parece ter sido obtido a partir do da Matemática A, suprimindo diversos tópicos (não conseguimos discernir um critério para os cortes). No entanto, pensamos que esta não é a forma adequada de elaborar um currículo, pois este processo acaba por ignorar os interesses dos destinatários. A Matemática B deveria ser construída, positivamente, a partir das necessidades dos alunos e não, negativamente, através de cortes. Pensamos que uma preocupação excessiva com a permeabilidade entre os cursos conduziu a um programa desajustado.

3.2. Discordamos ainda do conteúdo. As necessidades dos cursos a que se destina a Matemática B são muito diversificadas e não vemos razão para a uniformidade deste programa. Determinados cursos privilegiarão certos tópicos em detrimento de outros, menos significantes para a formação dos alunos.

Pensamos que será de reescrever o programa de Matemática B, atendendo essencialmente à sua adequação aos cursos onde se integra. Propomos, por exemplo, que ele seja composto por diversos módulos e que, para cada curso, sejam seleccionados alguns deles.

4. Sobre a abordagem do Tema III ao longo do ano

A proposta de abordagem do Tema III ao longo do ano integrado no Projecto parece-nos bizarra.

4.1. Por um lado, questionamos se é viável integrar a totalidade de um tópico matemático no Projecto. Embora muitos conteúdos que tradicionalmente são leccionados de forma expositiva possam ser ensinados com vantagem envolvendo os alunos em trabalhos de projecto, outros não o podem a não ser de modo muito forçado. Mesmo no tema Estatística, existem áreas que devem ser ensinadas formalmente (embora não necessariamente de forma expositiva).

4.2. Por outro lado, esta opção levanta inúmeras dificuldades práticas. O que acontece se a Área de Projecto não envolve matemática? E como se vai processar a integração das Sucessões e da Trigonometria e Complexos nos Projectos? Como se garante o estudo de todos os conceitos fundamentais destes temas?

Recomendamos, pois, que esta ideia seja abandonada.

5. Alterações aos actuais programas

Pensamos que se deveria aproveitar esta alteração curricular para mudar alguns aspectos dos programas actuais que transitaram para a Matemática A. Estamos a pensar, por exemplo, que quer as aplicações da Matemática, quer a resolução de problemas e o trabalho investigativo, aparecem apenas nas sugestões metodológicas, mas não nos conteúdos. Em currículos de outros países, estes temas são encarados com mais força e são assumidos como temas de pleno direito nos currículos de Matemática.

11 de Março de 2000